Padre Vaz, filósofo de um mundo em busca de sentido


Depoimentos sobre Lima Vaz

**SANTOS, José Henrique. Padre Vaz, filósofo de um mundo em busca de sentido.Boletim Informativo da UFMG. Nº 1353 - Ano 28 - 13.06.2002

Com a morte do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, professor emérito 

da UFMG, o pensamento brasileiro perde seu mais expressivo filósofo. Seu trajeto filosófico estende-se por toda a filosofia ocidental, num arco que vai de Platão até o exame da modernidade mais recente, sobre a qual versa seu último livro, Raízes da Modernidade, que não chegou a ver impresso, pois saiu da editora no exato dia em que morreu.

Dono de um conhecimento prodigioso de toda a tradição clássica, lida nas fontes originais e intensamente meditada, não ficou preso à exegese erudita dos textos. O conhecimento da metafísica grega, aliada ao estudo dos autores cristãos, deu a seu pensamento a densidade necessária para enfrentar o criticismo moderno. Dois autores despontam como referência obrigatória: Santo Tomás, espécie de norte magnético a indicar a direção, e Hegel, esse novo Aristóteles enciclopédico que se aventura a rememorar toda a cultura ocidental.

Para chegar a Hegel, contudo, há que se atravessar a imensa barragem das três críticas de Kant. Padre Vaz estudou-as com exemplar cuidado. Para sair de Hegel, no entanto, a modernidade exige um rito de passagem por Marx. Henrique Vaz não se esquivou dessa passagem, mas realizou-a como que de modo preventivo, antes mesmo de iniciar-se em Hegel.

Os conturbados anos 60 da vida brasileira fizeram-no compreender as urgências da política e impuseram-lhe a tarefa de uma leitura crítica e cristã do pensamento marxiano. Para entender o mundo moderno, aconselhava Hegel, substitua-se a prece matutina pela leitura dos jornais; Vaz corrige o mestre alemão: a leitura após a prece dará, sem dúvida, frutos melhores. A juventude católica não haveria de renunciar à fé pela política, deveria antes dar o testemunho da fé na própria militância política. Seus escritos daquela época não deixam dúvida quanto a esta opção definitiva. Em sua última entrevista, Padre Vaz fala de sua participação política naqueles anos, do trabalho com a Juventude Universitária Católica (JUC) e com o Movimento de Educação de Base, bem como de textos, como Cristianismo e Consciência Histórica, de 1961, que exerceram considerável influência nos movimentos cristãos, embora, modestamente, dissesse que "eram textos de reflexão, não de ação". Os estudos sobre Hegel desenvolvem-se a partir de 1970, na UFMG, através de uma série de cursos sobre o filósofo da Fenomenologia do Espírito, que se estenderam até sua aposentadoria, em 1987. Foram cursos memoráveis sobre a Fenomenologia, a Ciência da Lógica, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas e a Filosofia do Direito. Vem desta época seu renome como especialista na filosofia de Hegel, da qual, de fato, tornou-se tão conhecedor quanto já era da filosofia platônica.

Tão importantes quanto os estudos sobre Hegel são os livros que publicou nos últimos anos: a série dos Escritos de Filosofia, em cinco volumes, sendo três sobre ética; os dois volumes sobre Antropologia Filosófica; e o breve, mas substancial Experiência Mística e Filosofia na Tradição Ocidental. Por fim, o livro póstumo ao qual já me referi: Raízes da Modernidade.

Quero, porém, deter-me em duas obras fundamentais para entender a trajetória intelectual e o caminho espiritual de Padre Vaz: os dois volumes sobre antropologia filosófica e o livro sobre a mística. A primeira parte da Antropologia expõe criticamente as concepções sobre o homem na filosofia ocidental, enquanto a segunda empreende uma discussão dos conceitos subjacentes à idéia de uma antropologia filosófica.

A filosofia crítica de Kant formulou três perguntas fundamentais: Que posso saber?; Que devo fazer?; Que posso esperar? A primeira é teórica e deve ser respondida pela ciência; a segunda, prática, deve ser respondida pela filosofia (ética); a terceira, religiosa, só pode ser respondida pela fé. Resumiu as três questões numa única: Que é o homem?

Henrique Vaz aprofunda a questão. Após o exame histórico, retoma o problema em sua origem e estuda as categorias que permitem compreender o homem: objetividade, intersubjetividade e transcendência. Cada categoria ultrapassa a antecedente, mas a mantém implícita. Assim, a categoria de intersubjetividade não nega que o homem seja um objeto, mas indica que é um objeto que nega a si próprio para tornar-se sujeito; a intersubjetividade "sublima" a categoria de objeto, ao mostrar que o sujeito espiritual estabelece com outro sujeito uma relação eu-tu, base da comunidade espiritual e humana do nós. Cada eu é o outro de um outro. Esta segunda categoria permite pensar os conceitos de espírito e pessoa. A terceira categoria, transcendência, conserva a intersubjetividade, mas, ao mesmo tempo, a transcende na direção do Absoluto. Em capítulo inspirado, mostra que a noção de transcendência perturba a inércia do pensamento e o leva à reflexão radical que forma o impulso que move a filosofia: "a reflexão sobre a transcendência", escreve ele, "constitui a terra natal da filosofia" (Antropologia, vol. II, p. 114). Esta tese permite-lhe descobrir a presença do Absoluto: o fim não poderia advir se não estivesse antes no princípio. A Antropologia Filosófica culmina num capítulo sobre a categoria de pessoa, articulada entre o tempo e a eternidade. "O ser e o modo dessa eternidade permanecem inacessíveis à demonstração filosófica. Dela, no entanto, uma figura ou imagem transparecem justamente nesse dinamismo da auto-afirmação e nesse surto profundo do eu sou que passa além de todo eidos finito e tende à plenitude infinita do ser" (vol. II, p. 236). A demonstração filosófica não vai além da indicação de um caminho transcendente que o homem deve percorrer. É a versão conceptual da sede de infinito que experimentamos em nossa vida finita e incompleta.

A antropologia filosófica culmina no conceito de homem como pessoa e espírito, deixando claro que o espírito é uma exigência que não se satisfaz com qualquer determinação finita. Assim, a antropologia filosófica não pode ser aprisionada na precariedade da vida mate-rial. Ela deve, pois, transformar-se em cristologia, pois o homem é incapaz de ser o mediador de si mesmo no caminho do Absoluto. Cristo é o mediador absoluto.
Na missa comemorativa de seus 80 anos, Henrique Vaz reiterou sua profissão de fé diante dos discípulos e amigos que foram saudá-lo: "Eu amo o Cristo". Nove meses depois, na missa de corpo presente, a comunidade, em resposta, cantou: "... e neste Homem / o homem enfim se descobriu". Ecce homo. Deus o acolha entre os santos.

**Professor titular do departamento de Filosofia da Fafich e ex-reitor da UFMG

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